29º Top Of Mind de RH

As novas gerações e a CLT quem precisa se adaptar a quem

As novas gerações e a CLT: quem precisa se adaptar a quem?

Entre flexibilidade, propósito e autonomia, valores cada vez mais presentes entre jovens profissionais, a pergunta parece inevitável: a CLT precisa mudar para acompanhar as novas gerações, ou são elas que devem se ajustar ao modelo tradicional?

Para Michelly Costa, Gerente Sênior de RH da Ticket, a resposta não é binária. “A CLT ainda desperta opiniões polarizadas porque carrega uma herança de controle e rigor. Ao mesmo tempo, ela é uma ferramenta essencial de proteção ao trabalhador”, afirma. Segundo ela, o desafio não é descartar o que existe, mas modernizar a experiência laboral dentro do que a legislação já permite.

Proteção x Flexibilidade: o dilema do novo mundo do trabalho

A busca por flexibilidade não é uma tendência isolada. Uma pesquisa da Deloitte mostra que 78% dos jovens da Geração Z preferem modelos de trabalho mais maleáveis, enquanto um estudo da McKinsey aponta que a falta de flexibilidade é um dos três principais motivos para pedidos de demissão no Brasil.

Esse tensionamento recai naturalmente sobre a CLT, ainda vista como rígida ou antiquada por parte dos jovens. Michelly, porém, defende que há mais espaço para inovação do que normalmente se imagina: “É possível, sim, ter flexibilidade, autonomia e propósito dentro de um contrato CLT. O segredo está em como a empresa desenha a jornada do colaborador”, explica.

Ela cita exemplos já praticados por empresas que atualizam sua cultura e processos sem descumprir a legislação: horários flexíveis, modelos híbridos, semana comprimida, trilhas de desenvolvimento, maior autonomia nas entregas e até benefícios moduláveis.

CLT moderna: quando o básico não basta

Para atrair jovens talentos, não adianta oferecer apenas o pacote legal. A geração que entra agora no mercado exige coerência entre discurso e prática.

“Os jovens buscam empresas com valores vividos no dia a dia, impacto social, oportunidades reais de crescimento e ambientes emocionalmente seguros”, diz a gerente de RH. Segundo levantamento do LinkedIn, 63% dos profissionais de até 30 anos deixam seus empregos por falta de conexão com a cultura organizacional, um índice que reforça a necessidade de renovação das práticas de Recursos Humanos.

Além disso, benefícios que vão além da lei, como programas de bem-estar, apoio psicológico, auxílio a estudos, folgas remuneradas, modelos híbridos e políticas de diversidade, têm sido decisivos na disputa por talentos. “O que atrai e retém não é a legislação em si, mas a experiência construída em torno dela”, complementa.

É possível modernizar a CLT sem perder a proteção?

Para Michelly, sim. Mas isso exige trabalho conjunto entre empresas, legisladores e profissionais de RH. “A CLT é uma base sólida. A partir dela, podemos construir novas formas de trabalhar sem abrir mão da proteção social”, afirma.

Há um consenso entre muitos líderes e gestores de que mudanças estruturais seriam bem-vindas. Regulamentação mais clara para modelos híbridos, aprimoramento das regras de jornada e até ampliação das possibilidades de contratação flexível sem precarização são alguns exemplos. Ainda assim, muitas transformações possíveis não dependem de alterações na lei, mas de postura empresarial.

Se a CLT é a moldura, o RH é quem pinta o quadro. A especialista em Pessoas da Ticket resume o papel da área como o de mediadora entre o que a legislação permite e o que os talentos esperam: “Cabe ao RH provar que o contrato CLT pode ser moderno, humano e alinhado às expectativas das novas gerações.”

Isso significa traduzir requisitos legais em práticas acolhedoras, garantir que políticas internas não sejam mais rígidas do que o necessário e criar uma cultura que coloque o colaborador no centro.

CLT engessada ou mal interpretada?

A questão final talvez não seja apenas se as novas gerações terão de se adaptar à CLT, mas se o mercado ainda enxerga o modelo com a lente correta. “A CLT não precisa ser um obstáculo”, diz Michelly. “Ela pode ser uma plataforma para inovarmos, desde que haja criatividade, escuta e coragem”.

No fim, a disputa entre “CLT que muda” e “jovens que se adaptam” pode ser uma falsa dicotomia. A resposta está no encontro dos dois, um ponto de equilíbrio em que proteção e modernidade convivem sem conflito.

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