Absenteísmo e turnover costumam aparecer lado a lado nas análises de Recursos Humanos, mas raramente recebem a profundidade que merecem. Embora sejam conceitos distintos, um ligado às ausências e o outro à saída definitiva de colaboradores, ambos apontam para um diagnóstico comum: falhas na relação entre empresa e trabalhador. E isso custa caro.
“A diferença entre um e outro existe, claro, mas a raiz costuma ser a mesma: um desalinhamento entre o colaborador e a empresa”, afirma Michelly Costa, gerente sênior de Recursos Humanos da Ticket. Segundo ela, o absenteísmo “revela uma ausência física e muitas vezes emocional”, enquanto o turnover é a expressão final da ruptura desse vínculo.
O alerta não poderia chegar em momento mais crítico. De acordo com o levantamento Global Trends da Robert Half, o Brasil registrou, em 2025, a maior taxa de turnover do mundo, um dado que acende um sinal vermelho para empresas que ainda tratam o tema como um problema isolado ou inevitável. Para a executiva, o país está “errando na escuta, na personalização das jornadas e na valorização dos talentos”.
Benefícios como estratégia (e não como complemento)
A conexão entre a proposta de valor ao colaborador e os índices de permanência tem sido cada vez mais evidente. Benefícios corporativos, antes vistos como complementos da remuneração, tornaram-se pilares da estratégia de atração e retenção.
“Os benefícios são protagonistas na construção de vínculos”, destaca Michelly. Dados internos da Ticket reforçam essa visão: empresas que investem em benefícios personalizados e flexíveis apresentam índices significativamente menores de rotatividade. Não por acaso, modalidades como alimentação, mobilidade, saúde, bem-estar e reconhecimento têm se transformado em diferenciais competitivos.
Especialistas concordam: pesquisas recentes da Gartner mostram que 64% dos profissionais consideram a qualidade dos benefícios determinante na decisão de permanecer em uma empresa. Em um mercado de trabalho cada vez mais pressionado por disputas de talento, esse aspecto vai muito além do “pacote tradicional”.
Absenteísmo não é acaso, é sintoma
O absenteísmo reflete um conjunto de fatores que extrapolam a simples ausência. Ambiente tóxico, sobrecarga, adoecimento físico e mental, falta de propósito e até má gestão direta estão entre as causas mais comuns.
Para Michelly, o ponto central é compreender que essas ausências não surgem do nada: “O absenteísmo pode estar ligado a questões de saúde, clima organizacional, sobrecarga ou falta de propósito”. Ela reforça que, ao olhar para o problema com profundidade, a empresa mapeia falhas que comprometem não apenas a produtividade, mas a cultura.
Os impactos financeiros de absenteísmo e turnover vão muito além do óbvio. Segundo estudos da Society for Human Resource Management (SHRM), o custo médio para substituir um colaborador pode chegar a três vezes o salário anual do cargo, considerando recrutamento, treinamento e perda de produtividade. Mas é no campo invisível que mora o maior estrago.
“O custo invisível disso é alto: perda de conhecimento, impacto na cultura, queda de produtividade e aumento de gastos com recrutamento e treinamento”, aponta a gerente sênior de RH da Ticket. Esses efeitos, embora não apareçam imediatamente na linha do balanço, corroem silenciosamente o desempenho da organização.
Como construir uma empresa “irresistível”
Se a retenção se tornou um tema urgente, o conceito de “empresa irresistível” tem ganhado protagonismo no debate global sobre gestão de pessoas. Não se trata de oferecer tudo a todos, mas de construir coerência entre discurso e prática.
“Ser irresistível não é ser [uma empresa] perfeita. É ser coerente, humana e estratégica”, resume Michelly. O caminho envolve quatro frentes essenciais: cultura organizacional consistente, benefícios adequados, oportunidades reais de desenvolvimento e uma escuta ativa que vá além de pesquisas formais.
Na prática, significa criar ambientes onde as pessoas queiram estar e permanecer. “Investir em cultura, benefícios, desenvolvimento e escuta ativa é o caminho para construir ambientes onde as pessoas realmente se sintam parte”, reforça a especialista em Recursos Humanos.
Com o cenário desafiador e a competição por talentos cada vez mais acirrada, as empresas que entenderem essa lógica e agirem rapidamente estarão um passo à frente não apenas na atração de profissionais, mas na construção de relações mais sólidas, humanas e produtivas.
Capa: Via Depositphotos