Duas décadas atrás, o perfil esperado de um CEO era bastante claro: domínio técnico e capacidade de controlar a equipe para garantir resultados (muitas vezes, a qualquer custo). Esse modelo, no entanto, ficou para trás. As transformações no ambiente corporativo tornaram a liderança muito mais complexa, exigindo habilidades que, em muitos casos, parecem até contraditórias entre si.
Hoje, liderar uma organização vai muito além de acompanhar indicadores. Segundo Cadu Altona, sócio fundador da EXEC, empresa especializada na seleção e desenvolvimento de altos executivos e conselheiros, o líder atual precisa combinar visão estratégica, sensibilidade para inovação e proximidade com o time. Isso inclui estar acessível no dia a dia, oferecendo feedbacks rápidos e eficazes, mesmo em interações informais.
Nesse novo contexto, as chamadas “hard skills” deixaram de ser o principal diferencial. Elas passaram a representar o mínimo necessário para que um profissional seja considerado em processos seletivos de alta liderança. A avaliação agora vai além dos cargos ocupados anteriormente ou da trajetória linear até a diretoria. O olhar está voltado para competências mais amplas e comportamentais.
A proximidade, aliás, tornou-se um dos pilares da liderança contemporânea. A figura do chefe distante, inacessível, já não encontra espaço nas organizações. O executivo precisa estar presente, disponível e conectado tanto às inovações do negócio quanto às dinâmicas de cultura e gestão de pessoas.
Para Altona, o profissional mais valorizado atualmente é aquele capaz de equilibrar diferentes demandas sem comprometer o bem-estar da equipe. “Espera-se que o líder tenha talento para extrair resultados do time sem passar como um rolo compressor e deixar metade dos funcionários na fila do psicólogo para tratar de um burnout. O comportamento ‘tudo pelos resultados’ não é mais aceito atualmente”, diz.
Esse movimento também se reflete nos processos seletivos. Perfis excessivamente agressivos ou focados apenas em metas tendem a ser preteridos. Em seu lugar, ganham destaque líderes capazes de engajar equipes por meio de propósito, colaboração e transparência, características que fortalecem o senso coletivo e impulsionam resultados de forma mais consistente.
Outro fator determinante é a velocidade. “A era do planejamento de cinco anos para um negócio ficou para trás. Hoje, os ciclos de investimento costumam durar dois anos, com mudanças de rota constantes, muitas vezes de trimestre para trimestre, dependendo dos resultados”, pontua o executivo.
A inteligência emocional aparece, então, como um diferencial crítico. Líderes que conseguem administrar suas emoções, tomar decisões com equilíbrio e agir com empatia tendem a se destacar em um mercado cada vez mais exigente e imprevisível.
Conexão com as pessoas
A valorização do contato presencial também ganha força nesse contexto. Mais do que uma questão de controle, trata-se de reconhecer o papel da convivência no aprendizado e no desenvolvimento das equipes. Interações presenciais facilitam trocas, aceleram decisões e fortalecem vínculos — elementos que dificilmente se reproduzem integralmente no ambiente virtual. Por isso, modelos híbridos com presença mais frequente no escritório têm se consolidado.
Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que liderança não se sustenta de forma isolada. O CEO precisa atuar como um articulador, alguém capaz de integrar diferentes áreas e construir uma gestão coesa. Para isso, contar com uma rede de apoio – que inclui RH, conselhos e até mentores externos – é recomendável para lidar com desafios e manter o equilíbrio emocional.
“O principal executivo pode ter, por exemplo, o head de Recursos Humanos como um aliado importante e até uma espécie de mentor. Nesse sentido, ferramentas externas de coaching e de alinhamento de objetivos também podem ser um apoio relevante: é preciso pensar no Top Team Alignment, que significa a busca incessante pela construção da relação de confiança e de colaboração entre a alta gestão”, salienta Altona.
Essa mudança de paradigma também impacta a forma como a vida pessoal é encarada. O distanciamento rígido entre trabalho e vida privada perde espaço para uma visão mais integrada. Executivos passam a se sentir mais confortáveis para demonstrar suas prioridades fora do ambiente corporativo, contribuindo para relações mais humanas e autênticas dentro das empresas.
Nesse novo cenário, a liderança deixa de ser associada à figura do “herói solitário” e passa a se aproximar da ideia de um capitão que conduz o time com equilíbrio, clareza e colaboração.