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29º Top Of Mind de RH

é preciso comunicar valor ao falar de benefícios e do que vai além do salário

Por que as empresas investem tanto nas pessoas e comunicam tão pouco desse valor

Todo mês, existe um número que dificilmente passa despercebido pelo trabalhador: o salário que caiu na conta. Só que muito menos visível é tudo aquilo que existe ao redor dele.

Plano de saúde, seguro, benefícios, programas de desenvolvimento, apoio psicológico, flexibilidade, iniciativas de bem-estar, capacitação e diferentes formas de proteção também podem representar investimentos relevantes feitos pelas organizações em seus profissionais. O problema é que, muitas vezes, cada elemento chega ao colaborador separadamente. E ninguém “junta as peças”.

A consequência é o surgimento de um paradoxo. A empresa pode investir cada vez mais na experiência das pessoas sem necessariamente aumentar na mesma proporção a percepção de valor sobre aquilo que oferece.

Para Francisco Moredo, gerente de Receita da Populis, salário é apenas uma das partes da relação econômica entre organização e colaborador. O desafio do RH está justamente em organizar tudo o que existe ao redor dele e construir uma narrativa capaz de mostrar o conjunto dessa relação.

“Olha quanto você custa” não é transparência

Imagine receber da empresa um relatório com seu salário, plano de saúde, benefícios, encargos e outros gastos. Ao final, uma soma: este é o seu custo para a organização.

Embora matematicamente possa fazer sentido, no aspecto da comunicação a estratégia corre o risco de produzir exatamente o efeito contrário ao esperado.

Moredo diferencia as duas perspectivas. Para a gestão financeira, conhecer o custo completo de uma posição é indispensável para orçamento, dimensionamento de quadro e tomada de decisão. Isso não significa que a mesma linguagem deva orientar a conversa com o trabalhador. “O propósito não é dizer ‘olhe quanto você custa’. É dizer: ‘seu vínculo conosco é maior do que o valor que aparece no seu salário’”, orienta.

A diferença parece pequena, mas muda o centro da mensagem: sai o custo do funcionário e entra o valor da relação. É também por isso que simplesmente somar benefícios não resolve a questão.

Um programa caro para a organização pode ter pouco significado para determinado trabalhador. Ao mesmo tempo, uma iniciativa financeiramente mais modesta pode fazer enorme diferença para alguém em uma fase específica da vida. Custo e valor percebido não são sinônimos.

O RH tem os dados. Falta contar a história

Boa parte das informações necessárias para essa conversa já está dentro da empresa.

A folha reúne salários, movimentações, horas extras e diferentes componentes da relação de trabalho. Outras áreas administram benefícios, desenvolvimento, saúde e iniciativas voltadas à experiência do profissional.

O problema é que a estrutura organizacional pode fazer com que o colaborador enxergue exatamente aquilo que a empresa enxerga internamente: vários pedaços separados.

Ele recebe uma comunicação sobre plano de saúde hoje. Meses depois, conhece um programa de desenvolvimento. Em outro momento, descobre uma iniciativa de bem-estar. E mensalmente vê seu salário.

Tudo faz parte de uma mesma proposta, mas nem sempre parece fazer.

“É muito comum o colaborador receber uma informação sobre o plano de saúde em determinado momento, conhecer um programa de desenvolvimento em outro, receber uma comunicação sobre bem-estar alguns meses depois e visualizar seu salário mensalmente. Cada iniciativa existe, mas ele nem sempre consegue enxergar que todas fazem parte de uma mesma proposta de valor.”

Moredo acrescenta que o desafio não é somente comunicacional. É também de integração. O RH precisa organizar os dados, traduzi-los para uma linguagem simples e construir uma narrativa coerente sobre a relação entre empresa e pessoas. Quando isso acontece, a comunicação deixa de ser apenas informativa e passa a ajudar o colaborador a compreender o espaço que ocupa na organização.

E há um personagem que não pode ficar fora dessa equação: a liderança. Uma excelente proposta de valor apresentada no portal corporativo perde força quando a experiência cotidiana proporcionada pelo gestor diz exatamente o contrário.

Benefício que ninguém entende tem o mesmo valor?

Essa discussão ganha ainda mais importância diante da transformação do pacote oferecido pelas empresas.

Remuneração total é uma forma de ampliar a leitura para além do salário: remuneração direta, benefícios e mecanismos de proteção, oportunidades de carreira e desenvolvimento e recursos ligados à saúde, bem-estar e experiência podem ser apresentados como partes de um mesmo conjunto.

Entretanto, há outro cuidado, que é o de não transformar a proposta de valor em um catálogo interminável. Mais importante do que mostrar dezenas de números é ajudar o profissional a entender o que está disponível, por que aquilo existe e como pode ser utilizado.

A percepção também muda conforme o momento de vida. Desenvolvimento pode pesar muito para alguém no início da carreira. Flexibilidade pode tornar-se fundamental para quem tem filhos. Saúde pode ganhar protagonismo em outra etapa. Proteção financeira pode ser decisiva para outro grupo.

O gerente de Receita da Populis defende que incorporar a geração de valor à análise muda as perguntas feitas pelo negócio. Em vez de olhar apenas para quanto determinada pessoa ou política custa, entram na equação produtividade, retenção, conhecimento, inovação, qualidade e engajamento.

Não significa abandonar a racionalidade financeira. Significa ampliá-la.

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