29º Top Of Mind de RH

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Bem-estar financeiro deixou de ser benefício? Por que o dinheiro entrou de vez na agenda do RH

O problema pode começar muito antes de um boleto atrasar. Ele aparece na dificuldade para dormir, acompanha o profissional durante o expediente, disputa sua atenção com reuniões e entregas e, em situações mais graves, influencia até a decisão de permanecer ou não em uma empresa.

A relação entre dinheiro e trabalho nunca esteve exatamente separada. O que mudou é que as organizações começaram a enxergar com mais clareza o tamanho dessa conexão. E o bem-estar financeiro passou a ocupar espaço na estratégia de gestão de pessoas.

Os números brasileiros, dentro e fora das empresas, ajudam a explicar esse movimento. No Relatório de Cidadania Financeira 2025, o Banco Central mostra que o Brasil registrou apenas 35 pontos, em uma escala de zero a 100, no índice de bem-estar financeiro utilizado pela OCDE/INFE, abaixo da média de 42 pontos dos países participantes. Entre os brasileiros, 80,8% tendem a se preocupar com o pagamento das despesas cotidianas e 65,1% não conseguiriam lidar com uma despesa inesperada sem recorrer a familiares ou amigos.

Para Renato Gonçalves, VP de Vendas, Cobrança e CX da Creditas, esse contexto ajuda a derrubar uma fronteira que durante muito tempo prevaleceu dentro das empresas.

“Durante muito tempo, saúde financeira foi vista como um assunto privado. Hoje sabemos que ela afeta diretamente a experiência do colaborador dentro da empresa. Quando uma pessoa está sob pressão financeira, ela não deixa esse problema na porta do escritório.”

O dinheiro também ocupa espaço na cabeça

A entrada do tema na agenda da liderança e do RH não significa, naturalmente, transferir às empresas a responsabilidade pelas finanças particulares dos trabalhadores.

A questão é reconhecer que dificuldades financeiras podem produzir consequências organizacionais.

Estudo realizado pela Serasa, em parceria com Opinion Box e Fully Ecosystem, encontrou 30% dos brasileiros relatando falta de motivação para trabalhar em razão das finanças. Metade afirmou trabalhar pensando apenas nas contas.

A situação não é exclusivamente brasileira. Na pesquisa de bem-estar financeiro de 2026 da PwC, realizada com quase 3,5 mil trabalhadores nos Estados Unidos, 59% declararam estar estressados com suas finanças. Entre a Geração Z, 85% disseram que o estresse financeiro afeta a saúde mental e 71% relacionaram o problema à redução da produtividade.

É essa energia mental consumida pelas preocupações que Gonçalves destaca.

“Quem está constantemente preocupado com contas, dívidas ou falta de previsibilidade financeira tende a gastar mais energia mental administrando essas preocupações. Isso afeta foco, tomada de decisão e até disposição para lidar com desafios do dia a dia.

Há ainda uma consequência potencial para a retenção. Na avaliação do executivo, um profissional submetido a forte pressão financeira pode ficar naturalmente mais suscetível a considerar uma oportunidade que ofereça aumento salarial, mesmo quando sua experiência na empresa atual é positiva. Por isso, segundo ele, olhar para o tema pode fortalecer engajamento, produtividade e permanência.

Mas benefício financeiro não substitui salário

Esse ponto exige uma distinção importante.

Diante da popularização de soluções de educação financeira, crédito, antecipação salarial e outros benefícios, existe o risco de transformar o bem-estar financeiro em uma resposta para problemas que, na realidade, são de remuneração.

Gonçalves é categórico ao diferenciar as duas questões:

“Salário continua sendo um dos fatores mais importantes na relação entre empresa e colaborador. Benefícios financeiros não substituem remuneração adequada.”

A função dos benefícios, explica, é complementar a estratégia remuneratória, ampliando possibilidades em diferentes momentos da vida, como reorganizar dívidas, encontrar condições mais adequadas de crédito ou desenvolver hábitos financeiros mais saudáveis.

Essa diferença é fundamental para que o discurso do cuidado não produza uma inversão de responsabilidades. Ensinar alguém a organizar o orçamento não resolve, por si só, uma renda insuficiente. Da mesma maneira, remuneração adequada não necessariamente oferece conhecimento para lidar com dívidas, imprevistos ou planejamento de longo prazo.

Uma estratégia consistente precisa entender qual problema pretende resolver.

Uma palestra por ano resolve?

Outro sinal de amadurecimento está justamente na maneira como as empresas estruturam seus programas.

Durante muito tempo, educação financeira corporativa significou promover uma palestra, distribuir conteúdos ou realizar uma ação temática. O desafio agora é integrar o assunto à experiência do colaborador.

Segundo Gonçalves, organizações mais maduras vêm combinando benefícios, informação, tecnologia e comunicação contínua para atender diferentes necessidades ao longo da jornada profissional. Além disso, começam a utilizar dados para compreender como os recursos oferecidos são utilizados e quais necessidades aparecem com maior frequência.

Essa mudança também altera a maneira de avaliar resultados.

“O primeiro erro é medir apenas participação. Ter muitas pessoas assistindo a uma palestra não significa que houve mudança de comportamento”, pontua.

Em vez disso, o executivo recomenda observar fatores como evolução do conhecimento financeiro, utilização consciente dos benefícios, engajamento contínuo e percepção de segurança para tomar decisões. Indicadores indiretos também podem ajudar a avaliar o impacto.

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