Em um cenário em que as fronteiras entre vida pessoal e profissional se tornam cada vez mais difusas, o tema da saúde do colaborador ganha protagonismo nas discussões sobre gestão de pessoas. O cuidado com o bem-estar, seja ele físico, mental ou emocional, deixou de ser um benefício periférico para se tornar um pilar estratégico de negócios. Mas até onde as empresas devem ir? Qual é o limite entre o acolhimento genuíno e a intromissão?
Para Michelly Costa, gerente de Recursos Humanos da Ticket, a resposta começa com algo simples, mas cada vez mais raro: escuta e respeito.
“O acolhimento só é efetivo quando é sentido pelo colaborador como genuíno, e não como vigilância ou controle”, explica. “Isso exige que o RH e as lideranças desenvolvam uma escuta ativa, empática e não invasiva, apoiada por dados, tecnologia e uma cultura de confiança.”
Segundo a executiva, cabe às empresas garantir condições de trabalho que preservem a saúde integral das pessoas, o que inclui ergonomia, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, segurança psicológica e prevenção de doenças ocupacionais.
Por outro lado, há questões que ultrapassam a fronteira da responsabilidade corporativa, como conflitos familiares, vícios ou transtornos emocionais severos. “Nesses casos, o papel da empresa é oferecer caminhos, não soluções prontas”, reforça Michelly.
Nesse contexto, os benefícios corporativos se tornam aliados estratégicos na promoção do bem-estar. A Ticket, por exemplo, vem ampliando sua oferta de soluções que vão além do tradicional. “Programas de alimentação equilibrada, apoio financeiro, incentivo à atividade física, flexibilidade de jornada e ações de cultura e pertencimento podem transformar a qualidade de vida dos colaboradores”, observa.
Especialistas em saúde corporativa apontam que esse movimento é parte de uma tendência global: as empresas estão deixando de tratar o tema apenas como custo e passando a vê-lo como investimento em produtividade e engajamento. Dados da Deloitte mostram que organizações que implementam políticas consistentes de saúde mental têm até 55% menos rotatividade e um retorno médio de quatro dólares para cada dólar investido em programas de bem-estar.
Apesar disso, Michelly faz um alerta: “É preciso lembrar que a organização não substitui o terapeuta, o médico ou a rede de apoio pessoal. O papel da empresa é ser ponte, não destino”, afirma. “A abordagem certa é aquela que respeita a autonomia do colaborador, oferece recursos e promove uma cultura de cuidado sem infantilização.”
Na visão dela, a tecnologia e a inteligência artificial podem ser usadas como aliadas na personalização das ações de saúde e bem-estar, desde que respeitem os limites éticos e a privacidade dos dados.
“Com os recursos que temos hoje – como tecnologia, IA, benefícios inteligentes e modelos flexíveis –, a saúde precisa ser um diferencial competitivo. Empresas que cuidam de pessoas com autenticidade não apenas retêm talentos, mas criam ambientes onde a inovação e a performance florescem”, conclui.